Balanço anual número 3: 2011

Tal como no ano passado, se me atraso mais um dia este ano, já não faço o balanço de 2011 antes que seja Março. Por isso, aqui vai.

1.Há um ano, escrevi que 2010 tinha sido um ano de crise, mas acreditava que o mercado iria recuperar. Estava enganado. 2011 foi ainda pior, para o país e para o setor do livro, que caiu 3% em valor (painel GfK). As nossas vendas cresceram 8%, nada mau mas ainda assim abaixo do nosso objetivo por causa do que a seguir conto.

A nossa distribuidora Konsoante acabou por ser vítima da crise, que afetou a sua capacidade de pagar aos credores. No início de outubro, sofreu uma penhora de bens que a paralisou irremediavelmente, levando à sua falência.

Nós éramos a maior editora distribuída pela Konsoante e também o seu maior credor. E, no entanto, não fomos nós quem a penhorou e provocou a falência; pelo contrário, tínhamos arranjado uma solução para ela continuar a operar, até como forma de poder vir a pagar o que devia a nós e aos outros credores. É minha tese que uma editora só deve ter distribuição própria a partir de uma certa dimensão, e nós ainda não estávamos – por isso queríamos continuar com a Konsoante.

Nós queríamos mas o destino não quis, e dum momento para o outro vimo-nos a braços com um buraco financeiro enorme que ameaçava a nossa própria sobrevivência e ficámos sem distribuição nas vésperas do lançamento do nosso maior título do ano – O Diário de um Banana 5: A Verdade Nua e Crua.

Ou fechávamos nós também, ou dávamos o passo que faltava.

A decisão era óbvia.

O acontecimento do ano acabou assim por ser a nossa EMANCIPAÇÃO ANTECIPADA. Emancipação por passarmos a ter distribuição própria, antecipada por não prevermos que fosse já.

2. Passar a ter distribuição própria significa montar o departamento administrativo-financeiro, montar o departamento de vendas, montar o departamento logístico, contratar pessoas, arranjar armazém e mais escritórios, adquirir equipamentos, software, automóveis, criar uma nova empresa para fazer as vendas… e tudo isso fizemos em duas semanas loucas de outubro. Em 5 de novembro, foi o grande lançamento, na data prevista.

Tudo isto foi conseguido graças à equipa fenomenal que é a Booksmile Nascente Vogais (ainda falta um nome para designar a editora). De 6 pessoas (tínhamos começado o ano com 8 ) crescemos para 16 pessoas e todos vestiram a camisola. Misto de experiência e juventude, de competência formal e conhecimento empírico, a nossa equipa juntou forças na adversidade e saiu a ganhar. Repito, uma equipa fenomenal!

3. A Konsoante ficou a dever-nos mais de um milhão de euros, que não temos esperança de recuperar. Foi dinheiro que não entrou na nossa caixa para pagar aos nossos próprios credores. Qualquer um deles podia ter-nos feito o que fizeram à Konsoante, e íamos abaixo.

Qualquer um deles – incluindo os autores a quem pagamos direitos, as editoras estrangeiras a quem adquirimos direitos e livros, as gráficas onde imprimimos, e todos os freelancers que adoramos e que nos fazem traduções, revisões, paginações, capas e ilustrações – qualquer um deles nos podia ter mandado abaixo.

Só não mandaram porque se calhar confiaram em nós e acreditaram no nosso plano para dar a volta à situação e aceitaram o reescalonamento dos seus créditos, e por isso fica aqui um muito obrigado aos nossos parceiros que nos estão a apoiar.

4. Passando ao balanço editorial, o nosso plano retraiu-se por causa da crise e da Konsoante: de 120 títulos novos previstos entre as três chancelas (incluindo a nova Nascente, lançada em janeiro), lançámos 98, e reeditámos outros 62.

Concentrámo-nos em títulos de maior tiragem, e por isso está aqui o outro acontecimento do ano: entrámos no top 10 de títulos vendidos em 2011, com O Diário de um Banana 4: Um Dia de Cão, lançado em abril e que foi nesse mês mesmo o título mais vendido em Portugal (painel GfK).

No total do ano, imprimimos 560 mil livros, dos quais 295 mil de títulos novos (tiragem média: 3000 exemplares) e 265 mil das reedições.

Por chancelas, os 98 títulos novos repartiram-se em 59 para a Booksmile, 26 para a Nascente e 13 para a Vogais.

As nossas coleções-estrela continuam a ser O Diário de um Banana e Princesa Poppy, tendo cada uma delas ultrapassado a tiragem acumulada de 300.000 livros em 2011. Mas também destacamos no ano a edição de autores e personalidades consagradas como James Patterson (o seu primeiro título infantil), OSHO e Guy Kawasaki. Todos eles, e não só – e não só eles – fizeram com que fôssemos presença constante e repetida nos tops de vendas durante todo o ano.

Este é o segredo de uma editora de sucesso: ter títulos de sucesso. E o sucesso não é só sorte – também é sorte, mas não é só sorte. É preciso ir atrás do sucesso – e é com muita mágoa que recordamos que fomos atrás do livro mais vendido em Portugal em 2011 e que abandonámos o leilão de direitos a meio para nos concentrarmos nas questões financeiras da Konsoante. É a vida… mas qual será o livro mais vendido em 2012, para irmos outra vez atrás do sucesso?

Registamos ainda a venda dos primeiros direitos para o estrangeiro. Vida: Já perdoei erros quase imperdoáveis, de Augusto Branco, sai em maio no Brasil.

5. Objectivos 2012: vai ser outra vez um ano terrível para o mercado, com retração em valor. Mas nós vamos crescer 30%. E queremos crescer ainda mais, com investimento, ou com fusões, porque temos a competência, a equipa, os métodos, o momentum, e precisamos de pagar aos nossos parceiros para ultrapassar integralmente o buraco financeiro da Konsoante.

Editorialmente, vamos consolidar as nossas chancelas, e ter mais produção original – sempre cumprindo o mantra: editar livros de qualidade para o grande público.

Comercialmente, vamos manter a nossa agressividade e tentar descobrir como chegar aos livreiros independentes, que neste momento descuramos por não ser rentável ter uma equipa de vendas própria para os contactar.

A nível da organização, temos neste momento a equipa partida a meio, com 30 km a separar as duas metades – mas já em Abril mudaremos para novas instalações, funcionais e atrativas, na Amadora.

Finalmente, as surpresas. Se 2012 for como 2011, vamos ter algumas. Mas desta vez vamos fazer com que sejam agradáveis. Para nós, para os nossos parceiros e clientes, e para os nossos leitores!

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3 thoughts on “Balanço anual número 3: 2011

  1. Força Manuel …só tens que pensar que há males que vêm por bem…Felicidades para todos e depois convida me para a inauguração da Amadora

  2. Este é o meu Capitão Manuel de Freitas! ;D
    = Esta é a editora da qual visto a camisa!
    Milhões de vezes parabéns para si, meu bom Manuel e para toda a equipe. Vocês estão dando um grande exemplo de como ultrapassar um momento terrível de crise.
    = Isto é digno de nota – deveria ir para as manchetes dos jornais, a fim de inspirar os demais empreendedores de Portugal.
    Sucesso e felicidade sempre para todos.
    - E vamos adiante! ;D

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